Despertei num sobressalto. As luzes das estrelas davam ao céu um tom prateado. O céu chorava junto com a terra a perda de tantos filhos. Sequei o suor da minha testa com as costas da mão ferida. Agarrei minha espada e a usei como espelho, verificando todos os ferimentos. Mirei aquela figura pálida diante de mim. Como pude ter sido tão fraca? Como pude deixar que Anni escapasse das minhas mãos e caísse naquele abismo? Minha doce Anni… A lembrança me fez sacudir ferozmente os ombros, num rompante de choro e raiva. Sentia-me tão pequena que era capaz de me esconder em volta dos meus próprios braços. Não sei por quanto tempo fiquei naquela posição fetal, mas a mistura de lágrimas, suor, raiva e dor me fizeram parar tão rapidamente quanto comecei. O que havia de errado comigo? Tinha que continuar a luta.

Levantei de supetão e senti o mundo rodar diante dos meus olhos. Cai desengonçada no chão de pedras o que fez com que gritasse de dor! “Cacete – pensei – já não basta tantos machucados e vou danar minha bunda agora também?!”. Sorri com meu pensamento irônico. Afinal, nem tudo mudou em mim. Senti o estômago embrulhar e um gosto ácido subir pela garganta e encher minha boca. Cuspi o líquido amarelo com sofreguidão e asco. Havia tempo que não comia alguma coisa que realmente me sustentasse. Limpei os lábios com a manga da jaqueta surrada e levantei novamente, agora com mais calma para não cair pateticamente de novo.

Olhei ao redor. Pedaços dos meus irmãos jaziam em todos os cantos. Um grito animalesco rebombou no ar. A criatura ainda estava rondando, procurando almas para levar consigo ao submundo, fazendo novos escravos eternos. Senti os pelos da nuca ficarem eriçados. Precisava agir. Rápido. Depressa!

“O que foi isso?” – pensei ao ouvir um arrastar de pernas. Empunhei minha espada. O barulho era sutil, mas o suficiente para me deixar alerta diante do caos. Alinhei a coluna e me preparei para um possível combate. Me escondi atrás de uma caçamba de entulho tombada no meio da rua. Olhei em direção ao som que já não existia. “Hei!” – gritei. Um soluço começou a invadir meus ouvidos. Corri naquela direção, já não me importando com os tentras que poderiam estar vigiando ainda o bairro. Estaquei quando me deparei com aquela pequena figura já conhecida de tantos embates.

“Zilah! Zilah!” – gritei desesperada. Corri desenfreadamente em direção ao corpo imóvel. Me ajoelhei ao lado daquela cabeça frágil e machucada e coloquei cautelosamente em meu colo. Lágrimas começaram a se misturar com meu suor, por mais que eu as tentasse conter. Abracei Zilah com força, apertando ela no peito dolorido, quando um sussurro quase inaudível soou.

“Calma… To viva, pelo menos ainda” – sorri com o tom sarcástico daquelas poucas palavras. Essa era a Zilah de sempre. Ah! Como era bom encontrar alguém conhecido em meio a tanto pavor.

“Zilah o que aconteceu? Quem fez isso com você?” – perguntei desesperada percebendo o corte na altura do abdômen. Pela profundidade e grau de queimadura, deveria ser uma espada de arcox. Aquela merda doía demais…

“Quem você acha? Um tentra soltou vários mulos por ai” – disse Zilah interrompendo meus pensamentos – “…dei a sorte de dar de cara com uns três. Consegui jogar dois na armadilha que Elle aprontou, mas um terceiro filho de uma grande puta me cercou e fez isso aqui!”

“E ele fugiu?”

“Claro que não! Acertei os miolos do idiota”

Só então notei o corpo com a cabeça deformada caído depois do muro. Deixei Zilah no chão e fui ver se a criatura ainda vivia. O corpo arroxeado com as características escamas esverdeadas estava morto. Mas as garras ainda eram perigosas, já que o veneno de suas unhas eram letais contra crianças e pessoas gravemente feridas. Contudo, era um santo remédio para…

“O que vai fazer?” – perguntou Zilah com dificuldade.

“Você esqueceu que o veneno disso aqui é ótimo para curar feridas causadas por arcox?” – respondi no mesmo tom sarcástico e arrogante. Afinal, Zilah não era a única entendida no assunto. Saquei minha espada e decepei as mãos e pés da criatura grotesca.

“Agora que você já se divertiu, podemos ir?”

“Pra onde exatamente? Não tem uma alma viva nesse lugar…”

Zilah respirou fundo. Compartilhamos aquele momento dolorido. Ninguém. Nada. Apenas sujeira, corpos mutilados e o sangue de nossos irmãos escorrendo pelo asfalto. Mas ainda éramos as mesmas. Ainda éramos Jihades.

(continua…)

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s