Jihades – Parte 1

Despertei num sobressalto. As luzes das estrelas davam ao céu um tom prateado. O céu chorava junto com a terra a perda de tantos filhos. Sequei o suor da minha testa com as costas da mão ferida. Agarrei minha espada e a usei como espelho, verificando todos os ferimentos. Mirei aquela figura pálida diante de mim. Como pude ter sido tão fraca? Como pude deixar que Anni escapasse das minhas mãos e caísse naquele abismo? Minha doce Anni… A lembrança me fez sacudir ferozmente os ombros, num rompante de choro e raiva. Sentia-me tão pequena que era capaz de me esconder em volta dos meus próprios braços. Não sei por quanto tempo fiquei naquela posição fetal, mas a mistura de lágrimas, suor, raiva e dor me fizeram parar tão rapidamente quanto comecei. O que havia de errado comigo? Tinha que continuar a luta.

Levantei de supetão e senti o mundo rodar diante dos meus olhos. Cai desengonçada no chão de pedras o que fez com que gritasse de dor! “Cacete – pensei – já não basta tantos machucados e vou danar minha bunda agora também?!”. Sorri com meu pensamento irônico. Afinal, nem tudo mudou em mim. Senti o estômago embrulhar e um gosto ácido subir pela garganta e encher minha boca. Cuspi o líquido amarelo com sofreguidão e asco. Havia tempo que não comia alguma coisa que realmente me sustentasse. Limpei os lábios com a manga da jaqueta surrada e levantei novamente, agora com mais calma para não cair pateticamente de novo.

Olhei ao redor. Pedaços dos meus irmãos jaziam em todos os cantos. Um grito animalesco rebombou no ar. A criatura ainda estava rondando, procurando almas para levar consigo ao submundo, fazendo novos escravos eternos. Senti os pelos da nuca ficarem eriçados. Precisava agir. Rápido. Depressa!

“O que foi isso?” – pensei ao ouvir um arrastar de pernas. Empunhei minha espada. O barulho era sutil, mas o suficiente para me deixar alerta diante do caos. Alinhei a coluna e me preparei para um possível combate. Me escondi atrás de uma caçamba de entulho tombada no meio da rua. Olhei em direção ao som que já não existia. “Hei!” – gritei. Um soluço começou a invadir meus ouvidos. Corri naquela direção, já não me importando com os tentras que poderiam estar vigiando ainda o bairro. Estaquei quando me deparei com aquela pequena figura já conhecida de tantos embates.

“Zilah! Zilah!” – gritei desesperada. Corri desenfreadamente em direção ao corpo imóvel. Me ajoelhei ao lado daquela cabeça frágil e machucada e coloquei cautelosamente em meu colo. Lágrimas começaram a se misturar com meu suor, por mais que eu as tentasse conter. Abracei Zilah com força, apertando ela no peito dolorido, quando um sussurro quase inaudível soou.

“Calma… To viva, pelo menos ainda” – sorri com o tom sarcástico daquelas poucas palavras. Essa era a Zilah de sempre. Ah! Como era bom encontrar alguém conhecido em meio a tanto pavor.

“Zilah o que aconteceu? Quem fez isso com você?” – perguntei desesperada percebendo o corte na altura do abdômen. Pela profundidade e grau de queimadura, deveria ser uma espada de arcox. Aquela merda doía demais…

“Quem você acha? Um tentra soltou vários mulos por ai” – disse Zilah interrompendo meus pensamentos – “…dei a sorte de dar de cara com uns três. Consegui jogar dois na armadilha que Elle aprontou, mas um terceiro filho de uma grande puta me cercou e fez isso aqui!”

“E ele fugiu?”

“Claro que não! Acertei os miolos do idiota”

Só então notei o corpo com a cabeça deformada caído depois do muro. Deixei Zilah no chão e fui ver se a criatura ainda vivia. O corpo arroxeado com as características escamas esverdeadas estava morto. Mas as garras ainda eram perigosas, já que o veneno de suas unhas eram letais contra crianças e pessoas gravemente feridas. Contudo, era um santo remédio para…

“O que vai fazer?” – perguntou Zilah com dificuldade.

“Você esqueceu que o veneno disso aqui é ótimo para curar feridas causadas por arcox?” – respondi no mesmo tom sarcástico e arrogante. Afinal, Zilah não era a única entendida no assunto. Saquei minha espada e decepei as mãos e pés da criatura grotesca.

“Agora que você já se divertiu, podemos ir?”

“Pra onde exatamente? Não tem uma alma viva nesse lugar…”

Zilah respirou fundo. Compartilhamos aquele momento dolorido. Ninguém. Nada. Apenas sujeira, corpos mutilados e o sangue de nossos irmãos escorrendo pelo asfalto. Mas ainda éramos as mesmas. Ainda éramos Jihades.

(continua…)

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Som de Theremins

Olá a todos!

Hoje gostaria de falar da série Fundação, de Isaac Asimov. A série básica consiste de três livros: Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação. Foi publicada inicialmente entre as décadas de 1940 e 1950, sendo que o primeiro livro, Fundação, começou sua vida como uma série de oito contos publicados na revista Astounding Magazine entre maio de 1942 e janeiro de 1950. É um exemplo (inicialmente) do gênero conhecido como space opera, no qual temas baseados na história são aplicados numa ambientação de ficção científica. Embora vários dos temas usados por Asimov já estivessem circulando nas revistas de pulp fiction da época, a forma que ele lhes deu influenciou definitivamente a literatura, cinema e televisão que vieram depois. Cerca de 50.000 anos no futuro, a capacidade de viajar pelo hiperespaço é um fato cotidiano. Todos tem acesso a naves, aqueles com pouco dinheiro e tecnologia ruim apenas tem naves piores, mas ainda com capacidade de acessar o hiperespaço. Praticamente todos os planetas habitáveis da galáxia foram descobertos e povoados por seres humanos, e toda a galáxia está unificada politicamente num imenso Império Galático. No primeiro livro, Fundação, temos a introdução do Império e do brilhante psicohistoriador Hari Seldom, que desenvolveu matematicamente a ciência da psicohistória a níveis nunca antes atingidos, com isso prevendo a iminente queda do Império Galático. Ciente de que o caos resultante geraria imensas quantidades de sofrimento humano, Seldom toma providências para encurtar o tempo necessário ao surgimento de um segundo Império, através do estabelecimento da Fundação. No segundo e terceiro livros, com a Fundação já estabelecida, temos os percalços que se apresentam ao plano de Seldom e como são resolvidos. Se você conhece Star Trek TOS, Star Wars e Duna (e certas versões hiper-simplificadas de marxismo-leninismo), vai achar vários dos temas extremamente familiares.

Nos anos 40 do século XX, a tecnologia mais avançada, que mais falava à imaginação dos leitores de ficção científica, era a energia nuclear. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) estava em curso nos Estados Unidos o Projeto Manhattan, no qual os EUA, em colaboração com o Canadá e a Inglaterra, buscavam desenvolver armas nucleares, entre outras aplicações como a radiologia e os reatores nucleares usados em submarinos e porta-aviões. Porém, computadores à base de transistores e não tubos de vácuo só surgiriam a partir de 1955, nos dando quase uma década durante a qual era perfeitamente plausível pensar em naves espaciais movidas por reatores nucleares que eram versões melhoradas dos usados em submarinos mas nas quais nada era computadorizado e a maneira mais rápida de fazer cálculos era manualmente por um ser humano. Crescendo nos anos 80, assistindo reprises fora de ordem de Star Trek TOS na televisão, me parecia que a melhor maneira de selecionar material de leitura interessante era buscar ficção científica. Tendo encontrado na biblioteca da escola O Fim da Eternidade, marquei o nome de Isaac Asimov e passei a buscar seus livros em outros lugares, encontrando logo a Trilogia da Fundação editada pela Hemus. Para quem estava no ginásio, tendo que lidar com o que passava por introdução à literatura na época (o livro mais emocionante recomendado foi Capitães da Areia do Jorge Amado, diga se não é para desanimar), o estilo de Asimov era um imenso refresco. Ele escrevia de forma rápida e sucinta, focada no enredo, confiando que seus leitores se interessariam pela história contada sem necessidade que ele nos manipulasse emocionalmente gritando “Você não tem dó dessa pobre criança?!” Na década de 80 eu tinha muito pouca noção da história do desenvolvimento da energia atômica, e conhecia computadores de filmes como War Games e Tron. Descobrir a data de publicação da ficção científica que eu estava lendo na época me fez captar (anos antes de conhecê-la) a frase de Willian Gibson “The future is already here — it’s just not very evenly distributed.” Porém há ainda uma outra camada de estranheza dada pelo fato de que algumas das previsões de novas tecnologias de Asimov são certeiras, criando a ilusão de algo escrito numa data posterior, o que gera um choque quando a seguir nos deparamos com uma tecnologia ou convenção social que não sobreviveu aos computadores a válvula. O que eu considero o charme de ler os primeiros livros da Fundação hoje, seis décadas após sua gênese, é que eles iluminam a história das expectativas humanas. Nós podemos olhar o que as pessoas pensavam que seria fácil, o que nem imaginavam que poderia acontecer, e com isso calibrar nossas expectativas e planejamentos para o nosso futuro. As pessoas na década de 30 imaginavam que como pianos são caros, nós todos teríamos theremins em casa que usaríamos para nos expressar musicalmente como os mais ricos faziam com pianos no século XIX. Imaginavam corretamente que o avanço da tecnologia democratizaria o acesso à música, mas ao serem demasiado tímidos avaliando como as novas tecnologias alterariam a própria maneira das pessoas conviverem e interagirem, nem cogitavam da possibilidade de aparelhos com a capacidade de armazenar e reproduzir dias de música, como uma propriedade acessória de um aparelho de uso comum e individual (isso o mais importante). Cinquenta mil anos atrás, todos os poucos seres humanos no planeta viviam como caçadores e coletores, e muitas coisas que consideramos confortos da vida moderna lhes pareceriam matéria de pesadelo. Além de pela mera passagem do tempo ter migrado de gênero da ficção científica hard para um curiosíssimo atomic punk invertido, os livros são divertidos e rápidos de ler, como um Dan Brown que não considera seus leitores idiotas. Os problemas que surgem são resolvidos pelos personagens através de astúcia e inteligência, e quando eventualmente dependem de sorte e/ou força bruta, isso é considerado uma patética tragédia por todos os envolvidos.

Fundação é a ficção científica quintessencial, sua força está na exploração de idéias. Quando criticado sobre caracterização, diálogos e ritmo, a resposta de Asimov era que ele só se preocupava com o necessário para poder estabelecer e explorar todas as idéias que o interessavam. Por isso e pelas escalas de tempo envolvidas, Fundação tem sido por um longo tempo considerada infilmável (pelo próprio Asimov para começar). Porém, talvez inspirada pelo fato de que o mesmo já foi dito de A song of ice and fire, recentemente a HBO iniciou um projeto de adaptação para a TV com Jonathan Nolan. Vários já tentaram e falharam, mas a HBO tem se mostrado digna de consideração.

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Naruto !

Naruto

Hail Terculius Rex!

Estou aqui novamente, mas dessa vez para defender um mangá fantástico e muito popular, mas que é bastante desprezado por muitos da minha geração como já cansei de ouvir no passado (quando ainda conversava com as pessoas) e muito do que ouvi não passava de preconceito contra o desenho da moda sempre enfatizando que era pior que Dragon Ball ou Cavaleiros mais do que por problemas intrínsecos ao título em si, e confesso que  seus irritantes fillers do anime quase me desanimaram, mas a mudança para o mangá garantiu meu interesse.

Minha história com Naruto começou com  dois dvd´s e 25 episódios do anime em 2005 e em pouco tempo tratei de adquirir mais e mais dvd´s de procedência duvidosa até completar o que seria a primeira fase do mangá no anime(sem contar os fillers). Até esse ponto Naruto é uma história padrão e muito divertida com bons personagens e boas lutas mas nada extraordinário ou que tenha um apelo mais geral do que para seu público. A primeira fase conta com alguns momentos memoráveis como a luta de Naruto com Gaara e  a contenda com Sasuke no vale do do fim, mas depois disso os fillers infinitos me afastaram do anime definitivamente já que com cada vez menos tempo livre começou a me irritar acompnhar histórias sem muito sentido do irmão perdido do Ibiki entre outras e  etc etc etc.

Mas é a partir da segunda e derradeira etapa que o manga mostra a que veio, apresentando um Naruto adolescente e mais bem treinado e a ameaça da Akatsuki pairando sobre o mundo ninja. É aí que vemos o verdadeiro potencial da história aflorar quando a necessidade do protagonista ressaltar seu “jeito ninja” de nunca desistir nem abrir mão do que é importante para alcançar seus objetivos encontra dificuldades que vão lapidando o personagem e o levam a relfetir sobre seus atos, sobre a natureza dos conflitos  e até mesmo a perder o controle em alguns momentos da história afinal ele também é humano.  Também temos o desenvolvimento de outros personagens muito interessantes que valem por si só diversos capítulos da série que tem como atributo manter um grande número de personagens cativantes.  Nessa etapa também são trabalhados temas mais sérios como ódio, ressentimento, desamparo e perdão. A sequência da invasão de Konoha por Pain e sua luta com Naruto é um dos melhores momentos da história,  quando o herói enfrenta um adversário poderoso numa luta animal e se vê confrontado com um dilema ao ser conduzido por seu adversário numa luta feroz acaba por sucumbir ao ódio e a vingança que tanto almeja resolver, mas é felizmente  impedido num dos momentos mais tocantes da saga (até rola uma lágrima) este é um dos momentos em que o manga apresenta uma questão muito delicada, como parar o ciclo da vingança gerado pelos conflitos e guerras inerentes a atividade ninja? Como exercer o perdão quando se deseja retribuição? Vivendo num país violento como o Brasil, com discussões sobre menoridade penal,  pena de morte e principalmente crimes cada vez mais violentos cometidos por pessoas cada vez mais cruéis, procurar uma saída fora da violência contra (ou pela) a violência é dificílimo, e apesar de simplificar o manga não trata essa questão de forma leviana.

O que chama a atenção nesses nove anos em que acompanho Naruto, é que a obra evoluiu e se aperfeiçoou bastante, não deixou de ser shonen(algo como teen, não sou especialista) mas elevou sua qualidade consideravelmente me mantendo interessado e ansioso em saber o que vai acontecer a seguir, qualidade esta que se espera de toda série, claro, mas confesso que em Naruto essa espera me empolga mais do que em mangas que considero de maior qualidade e melhor  estruturados como Full Metal Alchemist.

As intermináveis lutas e golpes mirabolantes estão lá  em quantidade abundante, mas permeados de momentos tocantes e bem colocados com simplicidade e objetividade  alcançando um grande público sem entediar quem curte algo mais elaborado, não vou falar que é um primor  mas para uma obra popular é melhor do que se espera a primeira vista. Como em toda obra com essa quantidade de personagens e lutas a relação de poderes entre os personagens acaba por perder o referencial afinal entendemos que o controle do chacra é um controle de parte da alma, podendo guardar a vontade e personalidade de alguém em um selo por décadas. A implicação de certos jutsus é simplesmente obscena sendo que dá pra elaborar críticas bem embasadas sobre a falta de cuidado nesse nivelamento numa obra que o equilíbrio de forças é essencial, but I digress.

Se você gosta de manga e anime eu recomendo Naruto, dê uma chance e garanto que o Shippuden não lhe decepcionará. Não é a obra prima do século XXI mas garante um excelente entretenimento. O mangá está muito perto de acabar no Japão, se resolver dar uma chance blinde-se contra spoilers, se leu esse texto e ainda acha que Naruto é babaquice recomendo Ichi the Killer do Hideo Yamamoto aquele  mangá doentio e legal  do cão danado.

Classificação:   sofiazinhasofiazinhasofiazinhasofiazinha

Felmota.

P.S – Li o último capítulo do mangá essa semana,achei melhor que o final de Gantz muito foda excelente.  Mas fica com nota 4 mesmo.

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Ada ou Ardor

Ada ou Ardor

Olá a todos! O objetivo neste espaço é recomendar e ou comentar livros, filmes etc. com temática de ficção científica e/ou fantasia. E também falar de outras coisas que possam ser vagamente relacionadas. A recomendação de hoje é um livro de características épicas do mesmo autor do famoso Lolita. Escrito por Vladimir Nabokov em 1969, Ada ou Ardor trata da historia de amor entre Ada e Van, primos que se conhecem e apaixonam quando Ada tem doze  Van quatorze anos. Seu romance vai sobreviver a oito décadas, múltiplas traições e à descoberta de seu verdadeiro parentesco. Porém, à medida que o livro progride, cada vez mais incongruências históricas e geográficas se acumulam e a certo momento comenta-se en passant que a história se passa na AntiTerra. A tecnologia na AntiTerra é adiantada em alguns pontos, atrasada em outros e em alguns simplesmente estranha. A tecnologia de comunicação se baseia em água, os personagens se comunicam através de hidrofones aos quais atendem falando a l’eau.  Isso reforça a importância da água como chave para interpretações mais aprofundadas do livro. O livro é divertido, sexy, amoral, repleto de referências e trocadilhos em quantidades pratchettianas – trocadilhos trilíngues usando inglês/francês/russo são comuns mas não os únicos. À época em que li o livro tinha apenas vagas noções de inglês, e a tradução de Pinheiro de Lemos ajudou ao apresentar imediatamente e com naturalidade qualquer explicação necessária. Ada ou Ardor tem também momentos de meta e de comentários à literatura e à importância da narrativa. Todos esses elementos indicam que o Livro se presta a outras leituras além da imediata e superficial. Um romance proibido, permitindo vislumbres de história alternativa na prosa cuidada e descritiva de Nabokov. Um deleite.

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Banditos Cósmicos

Banditos Cósmicos

Banditos Cósmicos

A.C Weisbecker

Hoje falaremos desse livro de 1986 do escritor americano A.C Weisbecker, maiores informações sobre o homem no site dele http://www.aweisbecker.com/ os links do site não funcionam mas dá pra ler alguma coisa lá.

Nesta pérola  temos um narrador sem nome escondido num barraco na América do Sul, mais especificamente na Colômbia junto de seu grande cachorro Galalau(High Pockets no original) esperando as  coisas “esfriarem” para planejar seu  próximo movimento, mas quando seu amigo Bandito José lhe traz os frutos de um assalto a uma família de turistas americanos(como o narrador) com vários livros sobre física subatômica e cosmologia , sua percepção da realidade se transforma. A leitura dos grandes físicos do século XX lhe apresenta uma nova e perturbadora concepção da realidade, tão perturbadora quanto as atitudes libidinosas de Tina(filha do físico assaltado) deduzidas de seus postais aos seus namorados e seu diafragma oculto.

O que se tem a partir daí é a história sendo contada em duas frentes, o presente em que o narrador contando sobre suas descobertas no mundo da física e sua jornada para confrontar o pai de Tina sobre o mundo subatômico, e a própria Tina sobre como enganou Tom e Gary e outra no passado, em que o narrador conta a história de como ele foi parar num barraco na selva colombiana e suas aventuras no tráfico internacional de maconha.

O que se segue é uma hilária e delirante trama com toques preciosos sobre teorias da física moderna (moderna em 1986) muita bebedeira, drogas e Banditos com boas participações caninas, num clima de guerra fria e desestabilização de regimes pela América Central permeado por citações de Einsten, Schrödinger,  Heisenberg(not W.W) entre outros. Eu tinha calhado de ouvir o http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-324-alo-criancada-o-boson-chegou/   por acaso uns dois dias antes de pegar o livro e foi muito útil para me familiarizar com os quarks e comportamentos das partículas porém o livro flui rápido e as digressões físicas não são muito complexas ou arrastadas* não sendo necessário um  conhecimento aprofundado para curtir o livro que é permeado por notas de rodapé como as NRVT(nota de rodapé de viagem no tempo) além de sacadas geniais do narrador em sua correspondência com o pai de Tina, como quando planeja enviar mensagens gradativamente a medida que avança da Colômbia para a Califórnia para passar a ideia de atração gravitacional.

Recomendo a todos que querem uma obra leve e divertida, li em três dias e apenas no ônibus(eu rodo por aí) sem impactar minha rotina diária, apesar de uma súbita vontade de me embebedar e andar com uma granada de mão no bolso.

  • Se você lê palavras como gravidade ou entropia e não faz ideia do que é e nem quer saber, passe longe desse livro (e de qualquer outro que eu recomendar também, seu preguiçoso falastrão)
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Caça ao Turista!

Tourist Season cover

Caça ao Turista (Tourist Season) – Carl Hiaasen

Inauguramos esse espaço para falar do primeiro* livro desse grande escritor americano.

Nesta obra temos como mote as ações de Skip Wiley, ex-repórter que funda um grupo terrorista chamado Las noches de diciembre com o objetivo de preservar a vida selvagem da Flórida, mais especificamente a região dos Everglades  que devido a expansão urbana e ao turismo está sendo destruída pouco a pouco. Sua primeira ação é assassinar o presidente da câmara de comércio de Miami de uma maneira pouco ortodoxa

O detetive particular Brian K, é contratado para investigar o desaparecimento de Willey, ao passo que também é contratado para auxiliar a defensoria no caso do assassinato para provar da culpa de um suspeito. A esposa de Willey é ex-namorada de Brian, e  aos poucos o ambicioso plano de Willey vai sendo desenrolado para o leitor rumo a um final surpreendente.

Caça ao turista pode ser considerado uma Miami story, como vim a relacionar diretamente com os livros de Jeff Lindsay (Dexter) a história prende o leitor com facilidade e hoje em 2014 não há o que se em novidade, vários cortes que o autor realiza em momentos chaves parecem datados porém ele conduz a trama com eficiência e inteligência  juntando  suspense e comédia, com  personagens  interessantes e as vezes inúteis. Muitos livros de Carl  retratam a banalidade da vida cotidiana em seus personagens  secundários,  mas com  uma temática  também      profunda e atual sobre a destruição de habitats e espécies. Um índio seminole integra a grupo de Wiley o que é bem interessante para uma perspectiva da questão ambiental abordada conectada a das terras indígenas.

Quando li o livro relacionei de imediato com Leviathan de Paul Auster, e depois descobri que Caça ao Turista foi publicado seis anos antes e muito se pode relacionar com os personagens principais se couber um dedo acusador de  plágio Auster é o  acusado, isso se a relação  entre  os personagens não estiverem em algum outro livro dos anos 70…

Na lata posso citar Skin Tight e Native Tongue como outras obras fantásticas desse escritor que são garantia de um bom passatempo.

Caça ao Turista foi publicado em português pela Companhia das Letras mas creio que atualmente só em sebo. Minha cópia foi emprestada e não devolvida por  isso a imagem é  a  do pocket, para quem  quiser  praticar o inglês é uma ótima opção bem mais fácil que Terry Pratchett, Douglas Adams e britânicos afim.

Enjoy!

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