Som de Theremins

Olá a todos!

Hoje gostaria de falar da série Fundação, de Isaac Asimov. A série básica consiste de três livros: Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação. Foi publicada inicialmente entre as décadas de 1940 e 1950, sendo que o primeiro livro, Fundação, começou sua vida como uma série de oito contos publicados na revista Astounding Magazine entre maio de 1942 e janeiro de 1950. É um exemplo (inicialmente) do gênero conhecido como space opera, no qual temas baseados na história são aplicados numa ambientação de ficção científica. Embora vários dos temas usados por Asimov já estivessem circulando nas revistas de pulp fiction da época, a forma que ele lhes deu influenciou definitivamente a literatura, cinema e televisão que vieram depois. Cerca de 50.000 anos no futuro, a capacidade de viajar pelo hiperespaço é um fato cotidiano. Todos tem acesso a naves, aqueles com pouco dinheiro e tecnologia ruim apenas tem naves piores, mas ainda com capacidade de acessar o hiperespaço. Praticamente todos os planetas habitáveis da galáxia foram descobertos e povoados por seres humanos, e toda a galáxia está unificada politicamente num imenso Império Galático. No primeiro livro, Fundação, temos a introdução do Império e do brilhante psicohistoriador Hari Seldom, que desenvolveu matematicamente a ciência da psicohistória a níveis nunca antes atingidos, com isso prevendo a iminente queda do Império Galático. Ciente de que o caos resultante geraria imensas quantidades de sofrimento humano, Seldom toma providências para encurtar o tempo necessário ao surgimento de um segundo Império, através do estabelecimento da Fundação. No segundo e terceiro livros, com a Fundação já estabelecida, temos os percalços que se apresentam ao plano de Seldom e como são resolvidos. Se você conhece Star Trek TOS, Star Wars e Duna (e certas versões hiper-simplificadas de marxismo-leninismo), vai achar vários dos temas extremamente familiares.

Nos anos 40 do século XX, a tecnologia mais avançada, que mais falava à imaginação dos leitores de ficção científica, era a energia nuclear. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) estava em curso nos Estados Unidos o Projeto Manhattan, no qual os EUA, em colaboração com o Canadá e a Inglaterra, buscavam desenvolver armas nucleares, entre outras aplicações como a radiologia e os reatores nucleares usados em submarinos e porta-aviões. Porém, computadores à base de transistores e não tubos de vácuo só surgiriam a partir de 1955, nos dando quase uma década durante a qual era perfeitamente plausível pensar em naves espaciais movidas por reatores nucleares que eram versões melhoradas dos usados em submarinos mas nas quais nada era computadorizado e a maneira mais rápida de fazer cálculos era manualmente por um ser humano. Crescendo nos anos 80, assistindo reprises fora de ordem de Star Trek TOS na televisão, me parecia que a melhor maneira de selecionar material de leitura interessante era buscar ficção científica. Tendo encontrado na biblioteca da escola O Fim da Eternidade, marquei o nome de Isaac Asimov e passei a buscar seus livros em outros lugares, encontrando logo a Trilogia da Fundação editada pela Hemus. Para quem estava no ginásio, tendo que lidar com o que passava por introdução à literatura na época (o livro mais emocionante recomendado foi Capitães da Areia do Jorge Amado, diga se não é para desanimar), o estilo de Asimov era um imenso refresco. Ele escrevia de forma rápida e sucinta, focada no enredo, confiando que seus leitores se interessariam pela história contada sem necessidade que ele nos manipulasse emocionalmente gritando “Você não tem dó dessa pobre criança?!” Na década de 80 eu tinha muito pouca noção da história do desenvolvimento da energia atômica, e conhecia computadores de filmes como War Games e Tron. Descobrir a data de publicação da ficção científica que eu estava lendo na época me fez captar (anos antes de conhecê-la) a frase de Willian Gibson “The future is already here — it’s just not very evenly distributed.” Porém há ainda uma outra camada de estranheza dada pelo fato de que algumas das previsões de novas tecnologias de Asimov são certeiras, criando a ilusão de algo escrito numa data posterior, o que gera um choque quando a seguir nos deparamos com uma tecnologia ou convenção social que não sobreviveu aos computadores a válvula. O que eu considero o charme de ler os primeiros livros da Fundação hoje, seis décadas após sua gênese, é que eles iluminam a história das expectativas humanas. Nós podemos olhar o que as pessoas pensavam que seria fácil, o que nem imaginavam que poderia acontecer, e com isso calibrar nossas expectativas e planejamentos para o nosso futuro. As pessoas na década de 30 imaginavam que como pianos são caros, nós todos teríamos theremins em casa que usaríamos para nos expressar musicalmente como os mais ricos faziam com pianos no século XIX. Imaginavam corretamente que o avanço da tecnologia democratizaria o acesso à música, mas ao serem demasiado tímidos avaliando como as novas tecnologias alterariam a própria maneira das pessoas conviverem e interagirem, nem cogitavam da possibilidade de aparelhos com a capacidade de armazenar e reproduzir dias de música, como uma propriedade acessória de um aparelho de uso comum e individual (isso o mais importante). Cinquenta mil anos atrás, todos os poucos seres humanos no planeta viviam como caçadores e coletores, e muitas coisas que consideramos confortos da vida moderna lhes pareceriam matéria de pesadelo. Além de pela mera passagem do tempo ter migrado de gênero da ficção científica hard para um curiosíssimo atomic punk invertido, os livros são divertidos e rápidos de ler, como um Dan Brown que não considera seus leitores idiotas. Os problemas que surgem são resolvidos pelos personagens através de astúcia e inteligência, e quando eventualmente dependem de sorte e/ou força bruta, isso é considerado uma patética tragédia por todos os envolvidos.

Fundação é a ficção científica quintessencial, sua força está na exploração de idéias. Quando criticado sobre caracterização, diálogos e ritmo, a resposta de Asimov era que ele só se preocupava com o necessário para poder estabelecer e explorar todas as idéias que o interessavam. Por isso e pelas escalas de tempo envolvidas, Fundação tem sido por um longo tempo considerada infilmável (pelo próprio Asimov para começar). Porém, talvez inspirada pelo fato de que o mesmo já foi dito de A song of ice and fire, recentemente a HBO iniciou um projeto de adaptação para a TV com Jonathan Nolan. Vários já tentaram e falharam, mas a HBO tem se mostrado digna de consideração.

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Ada ou Ardor

Ada ou Ardor

Olá a todos! O objetivo neste espaço é recomendar e ou comentar livros, filmes etc. com temática de ficção científica e/ou fantasia. E também falar de outras coisas que possam ser vagamente relacionadas. A recomendação de hoje é um livro de características épicas do mesmo autor do famoso Lolita. Escrito por Vladimir Nabokov em 1969, Ada ou Ardor trata da historia de amor entre Ada e Van, primos que se conhecem e apaixonam quando Ada tem doze  Van quatorze anos. Seu romance vai sobreviver a oito décadas, múltiplas traições e à descoberta de seu verdadeiro parentesco. Porém, à medida que o livro progride, cada vez mais incongruências históricas e geográficas se acumulam e a certo momento comenta-se en passant que a história se passa na AntiTerra. A tecnologia na AntiTerra é adiantada em alguns pontos, atrasada em outros e em alguns simplesmente estranha. A tecnologia de comunicação se baseia em água, os personagens se comunicam através de hidrofones aos quais atendem falando a l’eau.  Isso reforça a importância da água como chave para interpretações mais aprofundadas do livro. O livro é divertido, sexy, amoral, repleto de referências e trocadilhos em quantidades pratchettianas – trocadilhos trilíngues usando inglês/francês/russo são comuns mas não os únicos. À época em que li o livro tinha apenas vagas noções de inglês, e a tradução de Pinheiro de Lemos ajudou ao apresentar imediatamente e com naturalidade qualquer explicação necessária. Ada ou Ardor tem também momentos de meta e de comentários à literatura e à importância da narrativa. Todos esses elementos indicam que o Livro se presta a outras leituras além da imediata e superficial. Um romance proibido, permitindo vislumbres de história alternativa na prosa cuidada e descritiva de Nabokov. Um deleite.

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Banditos Cósmicos

Banditos Cósmicos

Banditos Cósmicos

A.C Weisbecker

Hoje falaremos desse livro de 1986 do escritor americano A.C Weisbecker, maiores informações sobre o homem no site dele http://www.aweisbecker.com/ os links do site não funcionam mas dá pra ler alguma coisa lá.

Nesta pérola  temos um narrador sem nome escondido num barraco na América do Sul, mais especificamente na Colômbia junto de seu grande cachorro Galalau(High Pockets no original) esperando as  coisas “esfriarem” para planejar seu  próximo movimento, mas quando seu amigo Bandito José lhe traz os frutos de um assalto a uma família de turistas americanos(como o narrador) com vários livros sobre física subatômica e cosmologia , sua percepção da realidade se transforma. A leitura dos grandes físicos do século XX lhe apresenta uma nova e perturbadora concepção da realidade, tão perturbadora quanto as atitudes libidinosas de Tina(filha do físico assaltado) deduzidas de seus postais aos seus namorados e seu diafragma oculto.

O que se tem a partir daí é a história sendo contada em duas frentes, o presente em que o narrador contando sobre suas descobertas no mundo da física e sua jornada para confrontar o pai de Tina sobre o mundo subatômico, e a própria Tina sobre como enganou Tom e Gary e outra no passado, em que o narrador conta a história de como ele foi parar num barraco na selva colombiana e suas aventuras no tráfico internacional de maconha.

O que se segue é uma hilária e delirante trama com toques preciosos sobre teorias da física moderna (moderna em 1986) muita bebedeira, drogas e Banditos com boas participações caninas, num clima de guerra fria e desestabilização de regimes pela América Central permeado por citações de Einsten, Schrödinger,  Heisenberg(not W.W) entre outros. Eu tinha calhado de ouvir o http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-324-alo-criancada-o-boson-chegou/   por acaso uns dois dias antes de pegar o livro e foi muito útil para me familiarizar com os quarks e comportamentos das partículas porém o livro flui rápido e as digressões físicas não são muito complexas ou arrastadas* não sendo necessário um  conhecimento aprofundado para curtir o livro que é permeado por notas de rodapé como as NRVT(nota de rodapé de viagem no tempo) além de sacadas geniais do narrador em sua correspondência com o pai de Tina, como quando planeja enviar mensagens gradativamente a medida que avança da Colômbia para a Califórnia para passar a ideia de atração gravitacional.

Recomendo a todos que querem uma obra leve e divertida, li em três dias e apenas no ônibus(eu rodo por aí) sem impactar minha rotina diária, apesar de uma súbita vontade de me embebedar e andar com uma granada de mão no bolso.

  • Se você lê palavras como gravidade ou entropia e não faz ideia do que é e nem quer saber, passe longe desse livro (e de qualquer outro que eu recomendar também, seu preguiçoso falastrão)
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Caça ao Turista!

Tourist Season cover

Caça ao Turista (Tourist Season) – Carl Hiaasen

Inauguramos esse espaço para falar do primeiro* livro desse grande escritor americano.

Nesta obra temos como mote as ações de Skip Wiley, ex-repórter que funda um grupo terrorista chamado Las noches de diciembre com o objetivo de preservar a vida selvagem da Flórida, mais especificamente a região dos Everglades  que devido a expansão urbana e ao turismo está sendo destruída pouco a pouco. Sua primeira ação é assassinar o presidente da câmara de comércio de Miami de uma maneira pouco ortodoxa

O detetive particular Brian K, é contratado para investigar o desaparecimento de Willey, ao passo que também é contratado para auxiliar a defensoria no caso do assassinato para provar da culpa de um suspeito. A esposa de Willey é ex-namorada de Brian, e  aos poucos o ambicioso plano de Willey vai sendo desenrolado para o leitor rumo a um final surpreendente.

Caça ao turista pode ser considerado uma Miami story, como vim a relacionar diretamente com os livros de Jeff Lindsay (Dexter) a história prende o leitor com facilidade e hoje em 2014 não há o que se em novidade, vários cortes que o autor realiza em momentos chaves parecem datados porém ele conduz a trama com eficiência e inteligência  juntando  suspense e comédia, com  personagens  interessantes e as vezes inúteis. Muitos livros de Carl  retratam a banalidade da vida cotidiana em seus personagens  secundários,  mas com  uma temática  também      profunda e atual sobre a destruição de habitats e espécies. Um índio seminole integra a grupo de Wiley o que é bem interessante para uma perspectiva da questão ambiental abordada conectada a das terras indígenas.

Quando li o livro relacionei de imediato com Leviathan de Paul Auster, e depois descobri que Caça ao Turista foi publicado seis anos antes e muito se pode relacionar com os personagens principais se couber um dedo acusador de  plágio Auster é o  acusado, isso se a relação  entre  os personagens não estiverem em algum outro livro dos anos 70…

Na lata posso citar Skin Tight e Native Tongue como outras obras fantásticas desse escritor que são garantia de um bom passatempo.

Caça ao Turista foi publicado em português pela Companhia das Letras mas creio que atualmente só em sebo. Minha cópia foi emprestada e não devolvida por  isso a imagem é  a  do pocket, para quem  quiser  praticar o inglês é uma ótima opção bem mais fácil que Terry Pratchett, Douglas Adams e britânicos afim.

Enjoy!

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